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APRENDER, DESAPRENDER, REAPRENDER

APRENDER, DESAPRENDER, REAPRENDER
Há alguns dias, estive conversando com uma pessoa sobre organizações que aprendem. Quanto mais falo sobre isso, mais fica nítida em minha mente a imagem do que de fato seria uma organização que aprende. De acordo com o pensamento de Peter Senge, uma organização que aprende está em constante processo de aprendizagem. Segundo ele, as organizações caminham para a morte se não estiverem nesse estado de aprendizagem. Como as organizações são complexas e estão sujeitas à volatilidade da sociedade e do mercado, somente aquelas que estão em processo contínuo de aprendizagem, desaprendizagem e reaprendizagem realmente conseguirão manter sua perenidade e relevância.
A aprendizagem é necessária porque nunca sabemos o suficiente. Sempre é necessário reconhecer a necessidade de adquirir conhecimentos e aperfeiçoar habilidades. Nenhuma organização, por melhor que seja, pode prescindir da necessidade de aprender.
No contexto da igreja, vemos a mesma realidade, especialmente a necessidade de desaprender. As igrejas mantêm conceitos, valores e tradições que nem sempre estão de acordo com aquilo que Deus revelou em sua palavra com tanta clareza. Esse conhecimento adquirido não bíblico só serve para impedir o cumprimento da missão. Vemos cristãos tantas vezes apegados a práticas e costumes que deveriam ser abandonados, mas a força da tradição é tão poderosa que mudanças parecem ser, humanamente falando, quase impossíveis.
Como desaprender? Como deixar de lado o que nos atrapalha? Para nós cristãos, isso é teoricamente simples. Basta verificar se nossos conceitos, valores e tradições realmente estão fundamentados numa interpretação segura das Escrituras. Digo teoricamente simples porque tenho visto que, muitas vezes, ainda você consiga demonstrar de forma clara e indubitável que certas ideias não são bíblicas, ainda assim há pessoas que não vão conseguir de desfazer delas.
Por isso, até parece mais fácil tentar incutir o ensino bíblico para aqueles que são mais novos e estão prontos para aprender. Em outras palavras, desaprender pode ser um processo difícil e custoso. Mesmo assim, creio que ainda vale a pena. O que foi a Reforma senão um processo de desaprendizagem, reaprendizagem e aprendizagem? Não é fato que multidões conseguiram perceber que aquilo que eles haviam ensinado durante mais de mil anos não estava de acordo com a Palavra de Deus?
Então podemos chegar à conclusão de que hoje também é possível conduzir os cristãos de hoje num processo de desaprendizagem. Seria como ajudá-los a lançar no mar todo peso que impede a navegação. Para isso, é necessário persuadir através do ensino claro das Escrituras que aquilo que é mantido como algo precioso deve ser abandonado. Paulo, por exemplo, passou por essa experiência de desaprendizagem. Ele valorizava acima de tudo ser judeu, ser fariseu, ser descendente de Benjamim, ser a pessoa mais dedicada em sua religião. Quando ele conheceu a Cristo, considerou tudo o que ele valorizava como lixo, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo.
Então aqui está um caminho para a desaprendizagem. É descobrir o valor de Cristo! Quando encontramos a pérola de grande valor, tudo o mais é deixado para trás. Que então meditemos em Cristo, até que sua glória e majestade ofusquem toda a glória daquelas coisas que os homens valorizam. Que a glória de Cristo nos faça perceber a futilidade do conhecimento e tradições que um dia mantivemos como tesouros preciosos. Quem descobre a glória de Cristo, olha para a religiosidade e tradições como ouro dos tolos, sem valor algum.
É necessário desaprender. Sem isso, não é possível haver progresso significativo. Enquanto os crentes pensarem que a igreja existe para suprir suas necessidades egoístas, eles jamais cumprirão a missão que o Senhor nos deu. Enquanto os crentes não reconhecerem a necessidade de adorar o Deus vivo e verdadeiro, estarão tristemente adorando deuses mortos!
Como eu posso desaprender? Eu precioso rever meus conceitos e valores, eu preciso ter a coragem de submeter cada ideia e convicção à luz da glória de Cristo. Eu preciso de humildade para reconhecer meus erros e coragem para abraçar a verdade de Cristo, ainda que isso signifique rejeição e desprezo das pessoas ao redor.
Como posso ajudar outras pessoas a desaprender? É preciso muita convicção, coragem e compaixão, porque isso significa tirá-las da zona de conforto, abalar aquilo que elas consideravam estável e convidá-las a navegar “por mares nunca dantes navegados”.
Realmente não é uma missão fácil. Creio que é por isso que muitas pessoas têm medo de iniciar o processo de desaprendizagem. Sentem-se mais seguras agarradas às tradições que, por sua própria antiguidade, parecem ser mais seguras do que aquilo que somos desafiados a abraçar.
Estamos prontos para desaprender? Esta é uma das grandes perguntas que precisam ser respondidas. Estamos prontos a entrar nessa aventura de buscar a verdade até onde ela nos leve?
Jorge Noda